Utilidade Pública

O comentário está na coluna do Luís Fernando Veríssimo de ontem. Se você se interessa por assuntos como: Que fim terá o seu emprego caso os norte-americanos consigam nos empurrar a ALCA, clique aqui, leia até o fim e pressione seu deputado a agir em relação ao assunto conforme a conclusão a que você chegar. A entrevista está no Estadão do domingo passado (02/02) e foi dada por Lori Wallach, diretora de comércio global da organização não-governamental americana Public Citizen. O Major Policarpo Quaresma e o Escrivão Isaías Caminha, penhorados, agradecem. Alguns trechos, abaixo:

Lori - Exatamente como no Nafta, o capítulo sobre investimentos representa a maior parte do acordo. E o principal alvo é o Brasil. Porque a maioria dos outros países já cederam tudo, por exigência do FMI. Já abriram o uso da terra, a água, etc., para os investidores estrangeiros. E não têm política industrial. O Brasil ainda tem leis sobre limites mínimos de componentes nacionais em produtos industriais, ou que exigem transferência de tecnologia como condição para investimentos - os mesmos instrumentos que os EUA usaram contra a Europa na virada do século passado para se desenvolver; que o Japão usou contra os EUA nos anos 60 para se desenvolver; que a Coréia e os Tigres Asiáticos usaram contra os EUA, o Japão e a Europa. O Brasil é um dos poucos países em desenvolvimento onde essas políticas não foram eliminados pelo FMI. Portanto, a Alca, sob o modelo do Nafta, é uma forma de os EUA manterem o Brasil como reserva de mão-de-obra e de recursos naturais baratos, não um concorrente verdadeiro das indústrias americanas.

Estado - A sra. dizia que há duas possibilidades de o Brasil se dar bem na negociação da Alca.

Lori - Uma delas é não fazer acordo. É uma opção melhor, para o Brasil, do que seguir o modelo do Nafta. A outra é fazer um acordo diferente. Eu trabalho em Washington e converso o tempo todo com os congressistas, e minha percepção política me diz que a única maneira de o Brasil adquirir poder de negociação para obter um acordo diferente é deixar claro que não haverá acordo nenhum. Porque, se os EUA pensarem que o Brasil no fim das contas vai se render, não farão concessão alguma. Se os EUA sentirem a possibilidade de não haver Alca alguma, há uma chance - não estou dizendo que será fácil - de algo diferente. Porque a única coisa que os EUA realmente querem é o Brasil.

Esse é o segredo que todo mundo sabe em Washington. Os EUA já têm acordos bilaterais com o Chile, com a República Dominicana, há o Acordo de Livre Comércio da América Central, etc. E os EUA acham que essa é uma boa estratégia para seduzir o Brasil. O representante comercial dos EUA, Robert Zoellick, procura usar de psicologia, achando que o Brasil vai ficar preocupado porque o Chile já tem um acordo. A realidade é que o empresariado americano não liga a mínima para nenhum outro país. Na verdade, eles pensam que o governo americano está perdendo tempo. Eles perguntam: “Quem se importa com o Chile, El Salvador, Panamá? Olhe para o Brasil!”

Estado - Zoellick disse que a alternativa à Alca, para o Brasil, seria fazer comércio com a Antártida. O Brasil não deve se preocupar com isso?

Lori - Zoellick pensa que o Brasil não percebe que é o único país no qual os EUA estão interessados. Nos EUA, há um ditado: paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras não vão me ferir. Carne bovina e soja vão tirar Bush da Casa Branca, mas os pingüins não vão ferir vocês. Como Zoellick não pode fazer concessões sobre carne e soja, ele tem que fazer caretas para o Brasil. Mas é muito engraçado que os EUA digam ao Brasil: “Você devia se preocupar, você vai ficar com os pingüins e nós, com o Chile ou o Panamá”.

Provavelmente, os pingüins são melhores. Seria muito interessante se o Brasil obrigasse os EUA a mostrar as cartas que têm, dizendo: preferimos os pingüins a um acordo injusto.

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