Trilha sonora

Por Láudano Sine Nauta Navis

Tenho ouvido muito Diana Krall, The Last Balcan Tango, de Boris Kovac e Jorge Ben dasantiga. Quem gosta de jazz e/ou bossa nova provavelmente não vai se sentir desagradado ouvindo qualquer um dos três. Pra mim, tem servido de relaxante para escrever. Música é parte indissociável da minha vida: mais que da cegueira, meu maior pavor é a surdez permanente, reflexo do excesso de canções de ninar na infância e de uma eletrola Telefunken que vivia tocando de tudo, desde valsas de Strauss até o disco mais recente dos Secos e Molhados, passando por Francisco Alves, rumbas e boleros, muitos boleros. Pensou em Trio Los Panchos? acertou na mosca, quizás, quizás, quizás. As piçôa éra eclética lá em casa. É por essas e por outras, empiricamente perscrutadas, que estou desenvolvendo - gestando? - uma teoria de que toda criança cresce e se desenvolve em ambientes hostis, insalubres e, enfim, impróprios para crianças, a começar pelas próprias famílias. Durante anos a trilha sonora dos meus pesadelos foi o Nat King Cole cantando naquele castelhano de envergonhar até gringo: siempre que te pregunto, que, cuando, como y donde, tu siempre me respondes, quizás, quizás, quizás. Até aprender castelhano em definitivo, quizás foi uma das palavras mais misteriosas e espantosas da minha existência.

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