Mudança, Ano Novo, Lula e Outras Pitangas
Mudança quase terminada, carro na oficina, sem-teto temporário, pintor de paredes e lajotas de ocasião e champã às pampas no 25 e 31 meus males são. Fui com mais sete amigos - conta de mentiroso, vovó dizia - ver a pífia queima de fogos na Usina do Gasômetro esse ano, uma bolsa térmica cheia de champãs francesas falsificadas em Garibaldi debaixo do braço. Muita risada, algumas piadas internas novas, né Marialva, né Frederico, né Judeu? E engole tudo! Essa Meg só gosta de homem! E vocês não falem mal do Caetano, do Gil, nem de Deus que um deles vai castigar vocês! Depois tomar o rumo do Menino Deus, travar conhecimentos - não bíblicos - com uma simpática e risonha cadela husky - abraço procês, Meg e donos - aventou-se a hipótese de um amigo estar sendo estuprado na grama do Gasômetro pelo furor uterino de uma loira - ficamos preocupados - bebeu-se mais vinho, entupimos a Meg de batata frita, coitada. Enfim, foi divertido pacas, apesar da ressaca pela manhã ser do tamanho da mediocridade da tal queima de fogos desse ano. Em 2002 estava bem melhor, seja lá o que for uma queima de fogos “melhor”. Para culminar, o congestionamento das linhas no local e o posterior falecimento do celular impediu de mandar aquele abraço chinelo de sempre pras pessoas que eu queria mandar.
E a literatura, pra variar, ficou esquecida nesses dias. Mas olhando a posse do homem ontem, me veio à mente um conto do Sherwood Anderson. Hands, pra ser mais exato, do Winesburg, Ohio, de 1919. Sei lá se foi o modo como o Lula meio que esconde a mão esquerda ou a sensação de loucura lúcida, de utopista pragmático, de calejado mas sonhador que ele passa ao falar para as multidões. Ou pelo menos para a fração infinitesimal de multidão que eu represento. Sei que - conheço alguns - não faltará quem ache indigno e mambembe o fato do Rolls Royce ter sido empurrado, sei que não é seguro um presidente se expor daquela maneira, sei que houve centenas de “atos falhos” e mais mambembices, que o Lula erra concordâncias, etc, etc. A posse de Ernesto Geisel e de outras figuras deploráveis, como comentei num post anterior, foi, ao contrário desta, muito triste - ou pior, se quiser. E não vejo por que a vergonha de se ser mambembe, chinelo, improvisado, espontâneo ou simples, sem ser simplório: Mambembes, populares e improvisados também eram o único teatro e a música que prestavam em toda Idade Média européia. E não estou falando de canto gregoriano. Jazz, tango e samba foram manifestações mambembes e improvisadas na origem e não consigo imaginar o mundo sem eles - sou sem imaginação, mesmo. Villon foi claro e simples como um escritor de cordel e qualquer meia dúzia de seus versos vale a obra de muita gente incensada por aí. É interessante pensar que no Brasil um self-made man, como o vice-presidente José Alencar, Mauá ou Bill Gates sejam admirados como “modelos de administração e perseverança” e, quando se trata de um self-made man político, cause um certo mal-estar em certas pessoas (”ele nem sabe falar!”, “ele parece sujo!”, “ele é despreparado!”). Sempre lembrando que o único candidato, dos quatro aqueles, com diploma universitário foi o último colocado…
Pensei também no meu avô paterno e em minha avó materna. Vovô dizendo: “agora foi, cáspita!” e vovó abrindo um sorriso daqueles que ela sempre escondia e só mostrava quando, bom, enfim, tudo deu certo e dizendo, quando ouvisse o Lula falando das três refeições que ele quer ver todo brasileiro fazendo: “Deus te abençôe e ilumine, meu filho”.
E que Nanuq te abençôe e ilumine, Lula, porque agora foi, cáspita!
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