Arquivo de janeiro de 2003

Trilha sonora

31 de janeiro de 2003

Tenho ouvido muito Diana Krall, The Last Balcan Tango, de Boris Kovac e Jorge Ben dasantiga. Quem gosta de jazz e/ou bossa nova provavelmente não vai se sentir desagradado ouvindo qualquer um dos três. Pra mim, tem servido de relaxante para escrever. Música é parte indissociável da minha vida: mais que da cegueira, meu maior pavor é a surdez permanente, reflexo do excesso de canções de ninar na infância e de uma eletrola Telefunken que vivia tocando de tudo, desde valsas de Strauss até o disco mais recente dos Secos e Molhados, passando por Francisco Alves, rumbas e boleros, muitos boleros. Pensou em Trio Los Panchos? acertou na mosca, quizás, quizás, quizás. As piçôa éra eclética lá em casa. É por essas e por outras, empiricamente perscrutadas, que estou desenvolvendo - gestando? - uma teoria de que toda criança cresce e se desenvolve em ambientes hostis, insalubres e, enfim, impróprios para crianças, a começar pelas próprias famílias. Durante anos a trilha sonora dos meus pesadelos foi o Nat King Cole cantando naquele castelhano de envergonhar até gringo: siempre que te pregunto, que, cuando, como y donde, tu siempre me respondes, quizás, quizás, quizás. Até aprender castelhano em definitivo, quizás foi uma das palavras mais misteriosas e espantosas da minha existência.

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Calor

31 de janeiro de 2003

Era só o que faltava. Mais?

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Vício…

30 de janeiro de 2003

Eu simplesmente AMO esse jogo.

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Literatura

29 de janeiro de 2003

Estou há mais de uma semana sem postar nada e sem ler os blogs que gosto. Nesse meio tempo, muita coisa a se comentar, sobe e desce do dólar, Porto Alegre, a duas quadras da casa da minha mãe, cheia de gente de fora, o fórum rolando, etc, etc. Ano que vem, Fórum de Porto Alegre, edição hindu. Não irei. Hugo Chávez (!), o chapolim colorado, discursando numa sacada do palácio Piratini. Italianos, franceses, uruguayos, argentinos, suecos, portugueses, holandeses, paulistas (hordas, hostes de paulistas) perdidos, perguntando a todo mundo como chegar aqui ou ali. Oficinas que estavam nos lugares combinados, ao contrário do ano passado, Ivan, a reencarnação do seu Onésio o lendário bodegueiro da Demétrio Ribeiro esquina com Cypriano Ferreira vendendo horrores de garrafões de cinco litros de vinho chinelo de Garibaldi. Calor do Sahara, chuva, frio de 17 graus, vento e vento, mais calor, milhares de jovens sem banho, Lula em Davos, o escorregão do Banco Central na figura do seu presidente - como que pra comprovar a inépcia dos novos governantes com essas coisas de primeiro mundo, como neve e protocolos - e essa sensação, provavelmente falsa, de que o Brasil realmente tem algum peso geopolítico real.

Pois nessa semana de cidade de pernas pro ar, em que revi pessoas que há muito tinham saído da minha vida, descobri bons amigos onde não esperava, em que até o Teo andou meio sem conversar comigo, entrei num sebo - todas minhas coisas empacotadas e inacessíveis, inclusive os livros - e encontrei diversão pra esse resto de mês: A primeira edição espanhola do Parole i Sangue (Palavras e Sangue) de Giovanni Papini, de que já tenho umas quatro ou cinco versões, um livro de poemas do Victor Hugo sobre os acontecimentos de 1871, mais uma transcrição de incunábulo sobre a Colônia do Sacramento e uma cópia decente do Triste Fim de Policarpo Quaresma, um livro bem a propósito desses tempos de sobrevalorização da cultura brasileira. Se o Brasil der certo, Lima Barreto, enfim, será descoberto pelo mundo.

Essa primeira edição espanhola do Papini tem um prefácio do autor muito interessante (e pedante, como todo Papini), em que ele tem a idéia de publicar um livro que contenha apenas prólogos. Borges, que leu Papini nessa tradução, publicou a idéia original de mestre Papini em seu Prólogos Com Um Prólogo de Prólogos. Como não encontrarei esse livro entre minhas caixas, vou poupar os eventuais visitantes de uma transcrição deste prólogo. A tradução espanhola de 1919 é péssima, mas é muito legal ter em mãos um livro destes: lombada em relevo, gravação a ouro, prólogos do autor quase adolescente (modificados nas edições posteriores) e do tradutor, se desculpando pelo radicalismo do autor. Grande achado. Eu coração o Beco dos Livros.

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Raios…

29 de janeiro de 2003

Um driver errado para o meu velho USR 33600 de guerra me deixou navegando a pífios 1200 bps (5% da velocidade de qualquer modem vagabundo atual) por esses últimos dias e com dificuldades para abrir até o google. Tsc. A informática realmente veio para solucionar problemas que não tínhamos. E pensar que na época dos MSX, 1200 bps era uma velocidade estonteante. Tsc. É, e eu já usei um modem de 300 bps que era do tamanho de uma caixa de sapatos. E que precisava quase de uma operação de guerra para conectar com o modem do outro lado. “Alô? ô meu, manda bala.” Bléim, blóm, bléim.

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