Tango
Por Láudano Sine Nauta NavisFoi numa das semanas em que fiquei na cidade. Obrigações bancárias, obrigações do negócio, etecétera, mas o fato é que não estávamos na fazenda - “em campanha”, como dizem os gaúchos. Assim que cheguei por lá, uns meses antes, fiz amizade com o capataz de uma fazenda vizinha, famoso na região por ser o feliz possuidor de bons cachorros, “trabalhadores”. Não hesitei. Pedi um filhote. Passaram seis meses, com trocas de gentilezas de parte a parte que culminaram numa lista para a megassena em que até hoje aposto e que - caso ganhe - caberá dez por cento do prêmio ao antigo vizinho de fazenda ou aos seus sucessores, dado que “gaúcho” vive pouco, como todos sabem. Também tenho a esperança de, algum dia, ser visitado pelo seu João, me doando os dez por cento que ganhou na megassena. Enfim.
Quando o Tango chegou, estávamos na cidade. Quem o recebeu foi o Gustavo, uruguayo que era o capataz da estância naqueles dias. Seu João o trouxe de trator. Voltamos num sábado, trazendo o rancho, e, para qualquer “gaúcho”, o que mais importa - carne. A tarde caía, fazia frio.
- Tiene dos meses - disse o capataz, assim que nos viu.
- Como?
- El perro que seo Jo-on trajo.
- Ah, sério?
- Si. El nombre dela bestia es Tango. Yo escuchaba un tango - llovía - cuando el viejo lo trajo. Dile el nombre de Tango.
- Tango - eu disse. - Tango, repeti. É um bom nome prum cachorro.
- También pá un perro - disse Gustavo.
- É. También pá un perro.
Descobrimos o Tango embaixo das tábuas de um quarto abandonado do casarão de 1891. Preto retinto, com patas enormes, apesar dos poucos meses, e brancas. A ponta do rabo branca. Tango.
Tango cresceu rápido, uivava como um lobo (minha ex-mulher morria de medo dos uivos) a cada vez que havia lua cheia. Só os cachorros, os loucos e os Isidore Ducasse* têm a felicidade de poder uivar às luas cheias da campanha. Céu mais bonito só se vê na Amazônia, se você for dessas pessoas que vêem, além de enxergar, o que não é meu caso, pois sou míope.
Patas grandes, em filhotes, sempre prenunciam o tamanho da criatura. Tango, depois de dois anos era tão grande e babaca quanto um são bernardo. E uivava em noites de lua cheia.
Um dia, o capataz castelhano foi embora, e assumiu outro sujeito, que “antipatizou-se” com o Tango de saída. Às quatro da manhã, a hora em que acordávamos, Tango e os outros cachorros começavam a arranhar a porta do quarto em que dormíamos, que dava diretamente para a rua. Em 1891 ainda não tinham descoberto - na Campanha gaúcha - a existência de corredores nas casas. O sujeito dizia - “esse cachorro é um ‘inutilizado’. Imprestável”. Ele devia saber do que estava falando.
Um belo dia o Tango aparece babando. Não, não era raiva: qualquer idiota reconhece um cachorro raivoso. Ele tinha comido veneno. Carne e laranjas envenenadas com estricnina são os moderadores populacionais da campanha. Cachorros e crianças idiotas o suficiente pra comer qualquer um dos dois são presas fáceis. A vida no campo é dura, como dizem. Tango apareceu babando e minha ex-mulher disse “essa é a sua última noite aqui”. Eu só conseguia ver o pêlo preto do bicho reluzindo sob a luz da lareira do galpão. Estava bêbado de algo que não lembro mais o que fosse. Olhei para o bicho e pensei na Morte de Ivan Ilitch. Pensei na inutilidade da vida, na inutilidade da literatura, essas coisas que se pensa a sério quando se está bêbado. Ou melhor, nessas coisas que achamos sérias quando estamos bêbados.
Tango sumiu por dois meses. Encontramos o bicho, algum tempo depois, na beira de um açude, branco, branco como um urso polar, como alguém que envelhecesse do dia pra noite. Abri a boca pra dizer algo pra minha ex-mulher, mas a cena era tão bizarra que não consegui dizer qualquer coisa. Desde esse dia, comecei a achar a morte por envenenamento muito interessante. Branco como um Urso Polar. Tango. Te voy a ver en el cielo de los perros, mano viejo.
* Un jour, avec des yeux vitreux, ma mère me dit: “Lorsque tu seras dans ton lit, que tu entendras les aboiements des chiens dans la campagne, cache-toi dans ta couverture, ne tourne pas en dérision ce qu’ils font: ils ont soif insatiable de l’infini, comme toi, comme moi, comme le reste des humains, à la figure pâle et longue. Même, je te permets de te mettre devant la fenêtre pour contempler ce spectacle, qui est assez sublime.” Depuis ce temps, je respecte le voeu de la morte. Moi, comme les chiens, j’éprouve le besoin de l’infini… Je ne puis, je ne puis contenter ce besoin!
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