Arquivo de outubro de 2002

Ai, ai.

30 de outubro de 2002

Não sei porque merda me deu uma bruta saudade de São Paulo. Cacete.

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Truque

30 de outubro de 2002

Acabo de aprender um truque de estilos lá com o pessoal do estranhos links, que já adotei por aqui, modificado. Gostei, muito legal. Estou devendo um email ao 77, inclusive. Lapucha.

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Religião

29 de outubro de 2002

Minha mãe me convenceu recentemente, que, pra não ser discriminado, todo homem (toda criança) tem de ter uma religião. Aí, deixei de ser ateu e me converti ao Urso Polar. Inclusive tenho ensinado ao meu filho: “Existem muitos deuses, filho, e quase todos eles são tão ou mais malvados quanto o Papai Noel, o Mickey Mouse, o Lobo Mau ou o ‘Papai-do-Céu’ que as tias te ensinam. Menos o Urso Polar, que é amigo dos homens e limpa os pesqueiros das focas que nos roubam o peixe.”

“Papai, o Urso Polar mora no céu como o ‘papai-do-céu’?”

“Não, guri, ele mora na neve.”

“E a neve é melhor que o céu?”

“É, com neve a gente pode fazer bonecos (que nem os castelos de areia da praia) e pode fazer bolas de neve, pra atirar nos outros.”

“Ah, e tem algum deus que more nas areias?” (eu adoro esse guri)

“Tem, mas é o puma das areias.”

“É? e ele é brabo como o Leão Baio, papai?”

“É.”

“Papai, acho que gosto mais do Deus Urso. Mas depois do papai-do-céu.”

“Tá. Mas você vai ver que o Urso Polar é mais legal e boa gente que esse aí-do-céu.”

“E ele deixa a gente atirar bolas de neve nos outros, papai?”

“Deixa.”

“Ahn (pensativo). Papai, eu quero um urso polar de presente”.

“Tá, eu vou achar um pra ti.”

E, desde que conheci o Urso Polar, a luz da Aurora Boreal ilumina minha vida.

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Ah, não!

29 de outubro de 2002

Tenha a santa paciência. Você mesmo. Ó pra você:

Você é jornalista? Gosta de roubar histórias inteiras de blogs incautos e reproduzi-las sem ao menos citar a fonte? Você acha que tudo que está na rede pode ser usado sem um mínimo de consideração ao autor do material? Se você respondeu sim a essas perguntas considere-se o novo dono de um selo EU ROUBO MATÉRIAS DE BLOGS E ME ORGULHO DISSO! É só ROUBAR o código e colar no seu próprio blog ou na sua coluna online!

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Fome

29 de outubro de 2002

Não sei vocês, mas eu assisti a seis posses de presidentes até ontem pela manhã (mesmo que em 1974 eu fosse muito, muito moleque, mas, enfim, como era assunto de interesse da casa e todo mundo participava, inclusive as crianças, ficou uma vaga recordação do evento). Dessa época lembro bem do fechamento do congresso, a morte do Wlado Herzog, a prisão de um tio e a comoção que isso tudo ocasionou lá em casa. Enfim: Assisti à posse do general Ernesto Geisel (em termos), à do General João Batista Figueiredo (berrando “milicos fiasdaspus!”) à do senador José Sarney (desconfiado), à do plutocrata Fernando Collor (triste), à do governador Itamar Franco (aliviado) e, bom, a uma do presidente Fernando Henrique Cardoso em 1994 (descrente, amargurado pela segunda derrota do presidente agora eleito).

Todos os discursos versaram sobre “crises econômicas”, “ampliação da democracia”, “aberturas”, “manutenção da ordem e bem-estar social”, “consolidação disso ou daquilo” e foram discursos mais ou menos sonolentos, escritos, provavelmente, por gente com pendores para editorialista de grande jornal.

Ontem à tarde, quem teve a oportunidade de ver o pronunciamento do presidente eleito, e viu os eventos de posse anteriores, teve a certeza de que Lula deveria repetir o discurso de ontem no dia do janeiro próximo em que tomar posse (afinal, será no 1º ou no 6?). Nunca um presidente brasileiro - quiçá de qualquer outra nação - assumiu, tendo como primeiro compromisso, em caráter de urgência, a erradicação da fome no país. Certo, ontem não foi a posse. Certo, certo (mas a imprensa tratou quase como fosse). O que estou dizendo, é que seria inédito se esses compromissos fossem reassumidos perante o país e perante o mundo na solenidade de posse.

Quem conhece o programa contra a fome (a pouco debatida e não implementada Política Nacional de Segurança Alimentar), produzido pela ONG do Betinho e apoiado e abraçado pelo PT, sabe que temos no Brasil uma população que varia entre o tamanho da população da Argentina (36 milhões de almas) à da França (60 milhões), que ingere menos calorias do que precisa por dia, até por que os grandes ciclos da fome também são sazonais. A maior parte dos famintos ou subnutridos do país se encontra nas zonas de periferia urbanas (e é justamente aí que a fome é endêmica e permanente), pertinho da sua casa, se você está me lendo de uma capital ou grande cidade. Em algum momento do ano, um pico de sessenta milhões de brasileiros não terão o que comer. Talvez, de novo, ainda esse ano. Toda vez que via aquelas manifestações de classe média em que se vestia camisetinhas brancas com pombinhas bonitinhas e liberação de pombos vivos, eu pensava nesse número, e uma ironia amarga me brotava: “Essa gente devia é dar uma pomba branquinha dessas pra alguns dos milhões que está com fome hoje, pra ver que fritada eles iam fazer”.

Há tanto a se fazer no país, mas, se apenas isso, se o governo do Lula conseguir trazer à cidadania essa gente, terá valido. Era pra isso que eu berrei Diretas Já e Lula Lá durante esses anos desde 82, pra isso minha avó batia panelas e organizava as vizinhas pros panelaços, pra isso que escapei de um bom número de cargas de cavalaria nas greves gerais dos anos 80, pra isso meu pai e meu avô passaram pela cadeia de duas ditaduras diferentes, pra isso minha mãe, mesmo sozinha e com dois filhos pra criar, ajudou a fundar esse partido que agora chegou à presidência: Cidadania, oportunidades, educação, empregos, dignidade, comida pra todos os brasileiros. Que o bom Deus Urso Polar - o poderoso Nanuq - te ilumine, seu Lula.

E, não se esqueça, a palavra de ordem agora é acabar com a fome no Brasil, gente. Aposto que algum ex-fiscal do Sarney deve ler isto aqui. Talvez seja a hora de se engajar em algo muito mais nobre do que cuidar de maquininhas remarcadoras em supermercados e, talvez, garantir aquela paz que, de camiseta de pombinha branca e palavras bonitas e indignação cívica, nunca vamos conseguir. E, como diziam em 1789, “Aux Armes, Citoyens!”: Chegou a hora de trabalhar duro pra que, finalmente, a gente deixe de ter motivos tão descomunais pra se envergonhar do país.

(Ok, eu vou parar com a série política nas próximas - até por que tenho que falar do excelente livro do Mojo, que foi lançado semana passada - abraços a todos).

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