Sonho
Por Láudano Sine Nauta NavisEssa noite sonhei que era criança novamente e freqüentava a escola. Não era um sonho retrô, algo do passado. O ano era 2096, se não me engano. Estava numa sala de aula, e a professora escrevia em uma lousa branca com um pincel atômico. A aula era “História do Brasil” e a professora era um misto de uma professora que me deu aulas no ensino médio com uma outra, da quarta série do fundamental. Era bonita, enfim, e usava uma saia - meu deus, as mulheres do ano 2096 voltaram a usar saias! - que ficava pouco mais de dois dedos abaixo dos joelhos. A profe dizia:
- No início do século, o Brasil era um país covarde e estava quebrado por ter passado vários anos, no final do século vinte, sustentando um esquema de trocas e de câmbio de moedas que foi desastroso para o país e, principalmente, para as pessoas menos favorecidas. Acreditem, meninos: Havia milhões de pessoas que passavam fome! Isso mesmo! (todos fizeram uma cara de espanto, menos eu).
Não me contive e perguntei:
- Sôra, por que o Brasil era um país covarde? (lembro que minha voz era fina, parecida com a voz que eu tinha na infância, ou com a de meu caçula agora).
- Ah! - ela disse - infelizmente havia uma minoria, que tinha muitos recursos, grandes talentos e poder e que teria condições de ter alavancado A Grande Virada (que vocês já sabem que aconteceu a partir dos anos 50 desse século), mas que simplesmente não fez nada disso, e começou a se isolar em condomínios fechados, com grades cada vez mais altas, seguranças armados, guaritas, cães ferozes, quase como na época dos castelos medievais, enquanto a grande maioria dos brasileiros padecia de doenças fáceis de se curar e doenças causadas pela fome.
Quando a professora falava a palavra “fome”, meus colegas a fitavam com um olhar mais ou menos incrédulo, mais ou menos irônico. Alguém perguntou o que eram “grades”, ao que a professora explicou que eram como as grades dos zoológicos ou as dos presídios.
- As pessoas viviam enclausuradas, indo de casulos para casulos em carros poluentes, que queimavam combustível fóssil para se mover, ao contrário dos atuais elétricos e a hidrogênio.
Perguntei novamente:
- Mas, fessôra, por que eles eram covardes?
- Por uma série de questões, querido. Por exemplo, naquela época eles foram incapazes de preservar a indústria nacional, causando um desemprego recorde, foram incapazes de debelar uma doença endêmica causada por um mosquito (sim, havia doenças transmitidas por mosquitos, crianças) e endividaram o país comprando bens e mercadorias simples que hoje produzimos e exportamos para outros países.
Houve novo frisson na sala de aula quando a professora mencionou doenças causadas por mosquitos. Ela prosseguiu:
- Venderam grande parte das empresas brasileiras e quase terminaram com a natureza. No final do século 20 e inícios deste século, meninos, o Brasil era um país completamente quebrado e subjugado, um depósito para produtos de terceira qualidade vindos de países hoje infinitamente menos desenvolvidos que nós. Era, por exemplo, um grande importador de ração para animais de estimação, enquanto a maioria da população não tinha condições mínimas de saúde, higiene ou educação. Havia favelas, que foram os grandes aglomerados habitacionais para as pessoas pobres em que o crime organizado tomou conta das funções do estado e provocou uma guerra civil. Isso começou no fim dos anos 1970 e se estendeu até meados da década de 2010 e ficou conhecido como a segunda Guerra de Canudos. A primeira foi no fim do século 19. O país estava à beira do desmantelamento total, como o que aconteceu à Rússia mais ou menos na mesma época.
- Mas como isso mudou, fessôra? - uma menina ao lado perguntou.
- Tudo foi mudando paulatinamente, a partir de 2003. Esse foi o ano em que assumiu um presidente eleito em 2002 que começou a grande virada, que acabou acontecendo em 2050.
- E o que foi a Grande Virada? - perguntei.
Ela me olhou impaciente, com o olhar que dispensamos aos idiotas:
- O ano em que o PIB do Brasil superou o dos Estados Unidos e o principal eixo do comércio internacional se transferiu de vez para o Hemisfério Sul. Você já devia saber isso.
- Ahn, desculpe, eu não sabia.
E a aula prosseguiu e a professorinha explicava as mudanças que transformaram um país semi-feudal, violento, injusto e doente naquele país da qual ela se orgulhava. Parecia dançar em frente à lousa. Foi quando me dei conta de que estava sonhando. Acordei, fui para o micro e anotei um resumo do sonho, pra escrever sobre ele mais tarde. Ao lado do micro, a foto do meu caçula, que acabou de completar quatro anos. Um raio de sol entrou pela janela, bateu no monitor e refletiu um pedaço do meu rosto. Rugas e barba por fazer. “Os covardes do início do século” eu disse por fim pro sujeito cansado que me espiava de dentro do monitor. “Os covardes do início do século”, repeti.
Compare Preços de: DVD, MP3, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater no Buscapé.
Stumble it!