Mais velharia

Por Láudano Sine Nauta Navis

Mil novecentos e oitenta e dois e a ditadura não tinha acabado, mas já não prendia ninguém por subversão. Na TV, na época “canal 12, TV Gaúcha” - uma grande droga que depois tornou-se essa excrecência que é a RBS - Delfim Netto defendia o decreto 2045 ou o 2065 (alguém lembra o que foram?). Era o auge da crise da dívida pós-milagre e o Brasil acabara de decretar moratória. Eu tinha dez anos de idade e um pai que passara por uma cana política, coisa “leve”, só levou umas porradas, nada demais, segundo o próprio, e um avô comuna que passara uma temporada preso por desacato a um oficial e marxismo no fim do Estado Novo em 1945. Além disso, o pai de um primo meu fora preso e torturado em 1974 por ligações com a VPR e, por assim dizer, não batia mais muito bem das bielas.

Pois bem, lá estava o dr. Netto, o ministro da fazenda mais odiado de todos os tempos, segundo dizem, defendendo o decreto-lei 2045, que instituía o maior arrocho da História do país desde a derrama mineira que resultou na revoltinha e no enforcamentão do esquartejado Tiradentes. Não posso dizer exatamente que eu compreendesse até a minúcia o que estava acontecendo, mas tinha alguma pálida idéia das coisas (julgava ter), até por ter nascido em uma família “tão singular”.

De qualquer forma, comecei a xingar o senhor osteomizado e hoje provecto colunista da Carta Capital que dizia que o decreto era um mal necessário e que não era tão ruim assim ter a correção salarial apurada segundo um índice que expurgava algo como quarenta por cento da inflação do ano anterior, ou seja, todo mundo ficaria uns vinte e cinco por cento mais pobre no ano seguinte. Nada demais, claro, pois era preciso colaborar no ajuste fiscal e exportar (”plante que o João garante”) para que o país voltasse a crescer, criar empregos, ter crédito no exterior, saldar os compromissos. Uma lenga-lenga muito semelhante à que escutamos hoje dos senhores Malan e Fraga e provavelmente a mesma lenga-lenga que aplicavam no Império, na patuléia de então. Minha avó também estava assistindo, se embalando numa cadeira de balanço.

- Gordo filhadaputamentirosoladrãodemerda, eu disse, meio indignado. - Governo de merda! Milicada de merda! - repetindo alto o que ouvia dos sussurros dos adultos da casa.

Minha avó, que nunca dizia palavrões, me olhou séria e vociferou:

- Cala boca, guri! Tu quer que a macacada verde te prenda também, seu merda? Tu acha que vai adiantar tu ficar gritando pra televisão? Que esse gordo filho da puta vai te escutar? Tu quer ir preso, patifezinho? Quer ir pro DOPS, é? é? já pensou se algum puto judas-dedo-duro de vizinho te ouve? já pensou? Cala essa boca e nunca mais me fala do que tu não sabe! - e rugiu: - B-I-L-T-R-E!

“Biltre” era a última das ofensas da minha avó materna, pior que qualquer palavrão. Depois de dizer “biltre”, não duvido que ela puxasse um trinta e oito cano longo e fuzilasse o interlocutor, se esse insistisse na conversa. Era sempre um crescente: Patife!, canalha!, celerado!, e, por fim, um biltre!, que vinha do fundo da medula, mas só pros que fossem biltres de fato, nunca proferido em vão. Ela terminou o esporro, seguiu balançando na cadeira e olhando para a TV, furibunda. Ainda a ouvi resmungar algo. Fiquei quieto, como se nada tivesse acontecido, um bolor seco na garganta, vendo o Delfim falar. Mas eu não escutava mais nada.

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