Literatura e transgressão

Ontem à noite fomos eu, o Peter Pan e a distie a Usina do Gazômetro assistir ao debate “Literatura e Transgressão” ou “letras malditas”, dependendo da resenha, penúltimo debate da série “Idéias Provocantes” promovida pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre. Mediado por Roger Lerina, o evento contou com a participação de Daniel Pellizzari (”Ovelhas que Voam se Perdem no Céu”), Daniel Galera (”Dentes Guardados”), Clara Averbuck (”Máquina de Pinball”), Marcelo Mirisola (”O Azul do Filho Morto”) e Rogério de Campos (editor da Editora Conrad, de São Paulo). Pellizzari e Galera são, além de autores, editores da Livros do Mal, editora recente, mas cujo material foi muito bem recebido no centro do país - além de em Porto Alegre - e especialmente em São Paulo.

Feitas as apresentações, vamos aos fatos. O debate esteve divertido, com revelações mais ou menos engraçadas, como a cirurgia nas hemorróidas relatada por Mirisola como sua única experiência em body modification (tema do debate seguinte do ciclo) ou de que “eu sou um editor imbecil”, o que provocou sonoras gargalhadas na platéia de pouco mais de sessenta pessoas e algumas tiradas hilárias do Mojo Pellizzari (”ó, feri-me!”) e do apresentador. O debate começou com um atraso dentro do limite da civilidade, e a Clarah chegou uns trinta minutos depois do começo do bate-papo e entrou como uma celebridade, todos os olhares da platéia voltados a ela. Provavelmente o que ela desejava, anyways.

Teria muitas observações a fazer, mas dá uma certa preguiça escrever sobre esse tipo de debate. Freqüento eventos que reúnem escritores mais ou menos desde 1986, e, na minha “experiência” de espectador desse tipo de debates, toda as vezes em que se reúnem autores, editores e livreiros pra debater literatura, a conversa descamba para “mercado editorial” e direitos autorais. Escritores reclamam que não conseguem viver de sua própria literatura e editores dizem que o “mercado” é difícil, que há poucos leitores, etc, mas quase nunca divulgam seus números. O público, na platéia, que geralmente veio para ver o seu escritor (por que para o público comum, editores não existem, ou se existem são irrelevantes, o que é uma injustiça, mas, enfim), acaba vendo uma cena mais ou menos sindical de “trabalhadores oprimidos” alfinetando “patrões sanguessugas”, o que não é a realidade nem de um lado nem de outro, apesar de ocasionalmente os lados encarnarem esses estereótipos. Sejamos sinceros, após a reclamação explícita de alguém na platéia, debateu-se um pouco sobre literatura - tema da palestra - mas também houve o retorno aos assuntos “tiragens”, vendas, numerações, etc, que são sim, importantes, mas poderiam ter sido debatidos num evento específico (ao qual, eu, como um não-autor ou um autor para traças, não compareceria) sobre direitos autorais, etc.

O resumo da ópera é que estava divertido, apesar da pouca transgressão (que deve ter ficado para o tragoléu no Jeckyll), e talvez um “debate sério” fosse muito chato. Enfim. Gostei de ver o Mojo falando, o cara tem um “carisma” e um jeito pra falar em público que vai do emotivo ao bem articulado em segundos. Ficamos sabendo do apelido “internas” dele via Monty, na saída do evento, e sim, seu Mojo, o apelido é perfeito.

Daniel Galera também se expressa muito bem, etc e achei mais pontos confluentes com o que penso no que ele falou sobre o mercado editorial do que discordâncias. Tenho a impressão de que a LDM, que já é uma boa surpresa (bom, era surpresa no ano passado) a começar pelo nome, será uma excelente editora por que está sendo gerida por dois caras que entendem do assunto livro e estão antenados às coisas. Espero que, quando eles estiverem num “patamar” tipo o da Conrad, onde se pode apostar em alguns livros, eles publiquem também alguns clássicos “malditos” há muito esgotados, como o Homem Acabado ou Palavras e Sangue de Giovanni Papini ou uma tradução DECENTE (aquela, rimada, do Sérgio Uchôa Leite não vale) de François Villon. O país agradeceria penhorado, e, “bem vendido”, o caixa da editora também.

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