Anotação

Por Láudano Sine Nauta Navis

Estava fazendo algumas anotações mentais para um conto ou crônica, o que viesse a calhar melhor e junto pensava no eterno dilema do porquê de esquecermos algumas idéias completamente no trajeto entre o lugar onde se teve a idéia e o lugar onde consumamos o ato de sentar para anotá-la. Algumas pessoas pensam várias coisas ao mesmo tempo - raramente consigo me concentrar mesmo em uma, quem dirá em várias - algumas conseguem articular os seus lampejos de tal forma que chegam a garantir a semelhança do resultado à centelha que costumamos chamar idéia, outras simplesmente nem devem se dar ao trabalho de acreditar nas suas idéias e não as anotam. O mundo é surtido, como dizia a avó duma amiga minha…

Há temas recorrentes nos meus interesses: a criação, sua gênese até o momento do “Parla”; a loucura, com todas as gradações do desvario; a infância, com seus sofrimentos quietos que depois mascaramos como uma época de idílio. Há outros temas recorrentes, mas estes três são os que mais me interessam, me dou conta agora. Mas o fato é que, lembrando da idéia e, milagrosamente, tendo a oportunidade de anotá-la, acabo de desistir dela ao analisá-la bem e você entenderá o porquê. Seria um conto ou crônica em que um personagem absolutamente comum, um funcionário público, digamos, no caminho do trabalho pela manhã, subisse no ônibus, abrisse um livro de algum autor de que ele gostasse, começasse a ler e, no meio da leitura, sem mais nem menos, fosse assolado por um pensamento que começasse quase como um jogo mental risível. “E se o autor deste livro fosse, em sua vida privada, um sujeito completamente diferente disto que sinto que ele é, isto que depreendo que ele é, isto que a sua voz, o seu pensamento, que se torna o meu pensamento enquanto o leio, diz que ele é?” Este pensamento, no princípio engraçado, grotesco, começaria, durante o trajeto, a crescer, passando de uma simples graçola mental, destas que temos em alguns momentos de lucidez em meio à dureza bestificante do dia-a-dia, a uma idéia fixa, recorrente, com uma insistência quase de pesadelo. “E se, não só esse autor, mas todos os outros autores que já li forem assim?”

O homem começaria a simplesmente passar os olhos sobre o livro sem ler, como fazemos às vezes quando algo fora da leitura nos distrai, enleva ou aterroriza. O ônibus continuaria sacudindo e rangendo sobre o asfalto mal cuidado das ruelas do Centro Velho - sim a história se passaria em Porto Alegre, claro - e os transeuntes continuariam atarefadamente seguindo seus destinos de transeuntes para além das janelas fechadas. O homem sentiria calor, apesar do dia de outono estar convenientemente frio e nublado, afrouxaria a gravata, olharia para as pessoas ao redor, sentadas em seus bancos, compenetradas em serem passageiras, algumas também lendo, todos com algum destino a ser cumprido depois da curta viagem. “E se essas pessoas todas também estiverem fingindo? E se elas não forem absolutamente nada do que elas aparentam ser? E se aquela senhora gorda e bovina, que parece apenas estar indo ao médico com a filha pequena não for nada disso?”. O homem sentiria uma angústia de algo cujo nome não conheceria e tentaria em vão se recompor, achando um nome que servisse como um colete salva-vidas para a situação em que se metera.

O ônibus chegaria à estação do mercado, ele desembarcaria, primeiro evitando olhar para as outras pessoas, mas depois insistindo em olhá-las, apenas para comprovar que sim, talvez o seu pensamento estivesse certo e, sim, talvez todos estivessem fingindo enquanto se deslocavam febrilmente como formigas em direção aos seus afazeres. O caminho de poucas quadras entre a estação e a porta do prédio em que trabalha, seria penoso e longo, ao contrário do de todos os dias. Ao chegar ao escritório, o homem olharia para um ou outro colega, sempre pensando, “estão fingindo”, até que alguém lhe perguntasse: “Você está bem, fulano? está meio pálido…”, ao quê o homem responderia fingindo, “ah, é apenas uma indisposição passageira, com licença”, e iria ao banheiro. Colocaria a maleta sobre a pia de granito, afrouxaria de vez a gravata, sempre evitando o espelho à frente, lavaria o rosto, a nuca, respiraria fundo e se olharia bem de frente, olhos nos olhos, no espelho. “Não, ninguém está fingindo”.

Veja os preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras.

Stumble it!

Deixe um comentário: