Duendes
Por Láudano Sine Nauta NavisTem coisas em que a gente não acredita por default: Duendes, coelhinho da páscoa, honestidade de políticos e céu estrelado em São Paulo. Então… ontem da janela do hotel, havia um maravilhoso céu estrelado em que se via pelo menos uma dúzia de estrelas, entre elas o Cruzeiro do Sul, com uma das pontas da cruz bem apagadinhas, mas visíveis. Abri as janelas, respirei fundo o ar cheio de fumaça (estamos a três quadras da Marginal do Rio Preto, digo, Pinheiros), e me certifiquei de que as estrelas não eram pintadas no vidro da janela… Não, elas eram de verdade, e lá estava o Cruzeiro, apontando o dedo pra minha casa no Sul, da qual já estou com saudades… Desci com meu colega de curso para ir ao Morumbi Shopping, que ele não conhecia, e cuja “imponência” costuma impressionar rapazes caipiras como eu e ele.
Comentei com o taxista a história dos duendes e das estrelas em São Paulo e fomos ouvindo histórias dele sobre a cidade, da porta do hotel até o Shopping, dando algumas boas risadas. Mas, pra ser sincero, estou em dúvidas sobre o fato de ter visto estrelas ontem: quando voltamos pro hotel, no meio da recepção, havia um duende sobre a mesinha de centro que nos acenava. Perguntei ao meu colega se ele estava vendo o duende e ele disse, “não”. Ninguém mais no hotel parecia ter reparado na presença do alegre anãozinho verde. Entrei no elevador, apertei no nono andar, e, enquanto a porta se fechava, o duende, sempre sorrindo, me acenou um adeus compungido. Entrei no quarto e enquanto arrumava a cama e pegava o Chants de Maldoror que trouxe para ler, fiquei pensando no duende. Deitei, agradeci mais uma graça alcançada a São Campos de Carvalho e fiquei lendo, até o sono chegar.
Hoje pela manhã o clarão do dia me despertou, logo cedo. Escovando os dentes, lembrei da cara do duende, os detalhes perfeitos que a nossa memória guarda da realidade e tudo mais e sorri. Sim, eu não tinha visto qualquer estrela, não, mas o duende, esse sim, era real.
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