Pesadelos…

Por Láudano Sine Nauta Navis

Tenho acordado nos últimos dias revendo a cena de um filme - que é um dos da lista da Arca de Noé pessoal - e, logo ao acordar, repito: Claro. Claro que sí. Otto, el piloto. Claro que sí. E tudo é muito materialmente real e palpável. A cena, no filme, é mais ou menos essa:

Ana, abre um envelope, retira uma fita VHS de dentro e a coloca no videocassete. Na TV, surge a imagem de sua mãe, contando diversas coisas. Ela está em Sidney, se vê pela concha acústica atrás. A mãe de Ana continua contando suas novidades até que menciona a história do piloto alemão e que Otto também é piloto. E Ana repete: “Claro. Claro que sí. Otto, el piloto. Claro que sí”. E a maneira com que ela diz isso é clara, límpida e objetiva. Tão clara que só um idiota seria incapaz de entender o que está se passando. Mas a verdade é que não estou entendendo o que está se passando, e só acordo repetindo: Claro que sí.

Estou ouvindo a trilha de Amélie Poulain, outro filme da lista da Arca de Noé pessoal - por outros motivos - fumando meu cigarro e bebericando um rum em frente a este pedaço de vidro que vai sendo preenchido por símbolos negros, certo de que não estou entendendo algo que o mesmo “eu” que fuma esse cigarro entende perfeitamente no maldito sonho recorrente. É uma sensação de mal-estar mesclada a uma quase felicidade por entender perfeitamente algo que não me é possível nomear no momento. Meu avô me ensinou um dia como me livrar dos meus pesadelos, quando eu era criança: era só dar um nome a eles, os monstros dos pesadelos. Vi, mais tarde, uma cena que quase repetia isto, em algum filme que já não lembro qual seria. Boa parte da “teoria” freudiana e de seus “asseclas” e “continuadores” envolve exatamente o ato de verbalizar nossas questões com o propósito de “resolvê-las”. Ou pelo menos minimizá-las. Ou pelo menos aprender a sobrevivê-las: dar um nome ao monstro do pesadelo o diminui, torna-o um ente negociável, interpretável, um ente.

Como dizia Paulo Francis (leitor e admirador de Freud), “a vida era bem mais fácil antes de Freud”. Ou não. Sí. Claro que sí. Otto, el piloto. Claro que sí.

Deve ser o outono.

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