Arquivo de março de 2002

Pesadelos…

31 de março de 2002

Tenho acordado nos últimos dias revendo a cena de um filme - que é um dos da lista da Arca de Noé pessoal - e, logo ao acordar, repito: Claro. Claro que sí. Otto, el piloto. Claro que sí. E tudo é muito materialmente real e palpável. A cena, no filme, é mais ou menos essa:

Ana, abre um envelope, retira uma fita VHS de dentro e a coloca no videocassete. Na TV, surge a imagem de sua mãe, contando diversas coisas. Ela está em Sidney, se vê pela concha acústica atrás. A mãe de Ana continua contando suas novidades até que menciona a história do piloto alemão e que Otto também é piloto. E Ana repete: “Claro. Claro que sí. Otto, el piloto. Claro que sí”. E a maneira com que ela diz isso é clara, límpida e objetiva. Tão clara que só um idiota seria incapaz de entender o que está se passando. Mas a verdade é que não estou entendendo o que está se passando, e só acordo repetindo: Claro que sí.

Estou ouvindo a trilha de Amélie Poulain, outro filme da lista da Arca de Noé pessoal - por outros motivos - fumando meu cigarro e bebericando um rum em frente a este pedaço de vidro que vai sendo preenchido por símbolos negros, certo de que não estou entendendo algo que o mesmo “eu” que fuma esse cigarro entende perfeitamente no maldito sonho recorrente. É uma sensação de mal-estar mesclada a uma quase felicidade por entender perfeitamente algo que não me é possível nomear no momento. Meu avô me ensinou um dia como me livrar dos meus pesadelos, quando eu era criança: era só dar um nome a eles, os monstros dos pesadelos. Vi, mais tarde, uma cena que quase repetia isto, em algum filme que já não lembro qual seria. Boa parte da “teoria” freudiana e de seus “asseclas” e “continuadores” envolve exatamente o ato de verbalizar nossas questões com o propósito de “resolvê-las”. Ou pelo menos minimizá-las. Ou pelo menos aprender a sobrevivê-las: dar um nome ao monstro do pesadelo o diminui, torna-o um ente negociável, interpretável, um ente.

Como dizia Paulo Francis (leitor e admirador de Freud), “a vida era bem mais fácil antes de Freud”. Ou não. Sí. Claro que sí. Otto, el piloto. Claro que sí.

Deve ser o outono.

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O mesmo tédio

31 de março de 2002

Aí está… esse é o mesmo tédio que sinto em certos bairros de São Paulo, Porto Alegre, Montevideo e em Curitiba inteira. O tédio que a Marina, mandando muito bem no post “Sabadão Sertanejo”, fotografou. Tédio de farofada chique, de circos tristes, de um mundo ascéptico e vazio de conteúdo. De um mundo que precisa se esconder em redomas, criptas e castelos.
A Marina volta e meia põe umas coisas lindas de próprio punho por lá, e costumo visitar seu blog meio filtrando as fotos de artistas de óli-udi… :^) Esse “Sabadão Sertanejo”, Marina, pode ser experimentado, como você bem disse, em Miami ou em qualquer dos links acima, não?

Resolvi poupar Carrasco, por que, digam o que disserem, Carrasco é lindo pacas… :^)

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Olha só

31 de março de 2002

Visitando o site da escolinha em que estudei, descubro que ela, com toda sua ripongagem e falta de recursos proverbiais, ainda assim foi a primeira no tal exame nacional de cursos do “governo” do Júlio César Henrique Cardoso em 2000:

O Instituto de Letras da Ufrgs é 1º Lugar no Provão do MEC

Fonte: estadão.com.br - 20 de dezembro de 2000

Letras

1º Federal do Rio Grande do Sul
2º USP
3º Univ. Estácio de Sá, Unicamp e Federal do Paraná

Deve, obviamente, haver algo errado ou com o resultado, ou com o teste ou com o mundo, pois a USP, tão cheia de luminares de nossa cultura acadêmica jamais poderia ficar atrás de uma escolinha de fundo de quintal como o Instituto de Letras da Ufrgs, pois não?

Há mistérios nesse mundo, como o ponto certo das panquecas ou isto acima, que realmente me intrigam.

Se alguém não leu a tag [ironia] ou mesmo a [sarcasmo] no post acima, a culpa não é minha.

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Incunabula, incunabula

31 de março de 2002

Pois é, eu estou procurando em Latim, francês ou português, desde meus dezoito anos, um livrinho que, acabo de saber, teve uma tradução publicada pela Martins Fontes em 1998. Meu tio e guia literário para a antiguidade latina, Michel de Montaigne, costumava citar lindas passagens de Boécio nos seus Essais, e cheguei a ler uma versão espanhola que deve ter sido escrita em cima dos joelhos, de tão ruim e incoerente quando cotejada com um original em latim (da época em que eu lia em latim) da Universidadeca onde eu estudava.

Uma pesquisa, em 1997/8, no Altavista, não rendeu nada de muito útil: nem em latim se encontrava a obra completa. Hoje em dia as coisas estão mais fáceis. Bem mais. Uma busca por “De consolatione philosophiae”, no google, agora, rende muita coisa interessante como esse facsímile duma tradução catalã de 1470/80, que será devidamente baixado para meu HD nos próximos dias para posterior análise…

Do site em que há algo sobre a tradução da Martins Fontes:
A Consolação da Filosofia foi escrita na prisão por um condenado à morte. A admiração que essa obra latina do século VI suscitou ininterruptamente desde então não deve nada, ou deve muito pouco, às circunstâncias ‘trágicas’ de sua composição. Trata-se de uma obra-prima da literatura e do pensamento europeu; ela se basta, e teria o mesmo valor se ignorássemos tudo a respeito daquele que a concebeu entre duas sessões de tortura, à espera de uma execução. Mas, dado que essa obra-prima não é anônima, nada perde por ter um autor e ser situada em suas circunstâncias; torna-se também, assim, o testemunho da grandeza à qual um homem pode elevar-se pelo pensamento em face da tirania e da morte.”

Esse clima de “Balada do Cárcere de Reading” não é bem o que se encontra no que me lembro da obra, mas, de qualquer forma vamos ver como traduziram o pobre Boetius no nosso idioma materno. E, claro, se você tem um incunábulo intacto ou bem conservado, em latim ou português castiço de antes do século XIV desta obra e está a fim de fazer negócio, entre em contato… E, se você for moçoila, casadoira, bonitinha, etc, e não se importar que seu parceiro seja bígamo, eu também caso com você…

Em tempo: Boécio também escreveu sobre música e é considerado, junto com Cassiodoro, um dos primeiros teóricos da música “moderna”… Coisas como:

Les genres: Il y a trois genres. Diatonique, chromatique, enharmonique. Entre les sons fixes (quarte et octave), toutes les parhypates ou trites, lichanos ou paranètes sont mobiles. Cette mobilité détermine les genres: Diatonique : ton, ton, demi ton - Chromatique: demi ton majeur, demi ton mineur, deux ton ? Enharmonique : Tierce majeure, deux pycnum, demi ton.”

ou

Le son: C’est la consonance qui régit la conduite de la mélodie. La consonance suppose le son. Il n’y a pas de son sans impulsion ni percussion de l’air, sans mouvement qui la provoque. Le son est la percussion indivise de l’air qui parvient à nos oreilles. Les mouvements sont plus ou moins rapides, plus ou moins lents, plus ou moins fréquents, plus ou moins rares. La rapidité engendre l’aigu. La lenteur engendre le grave. Une corde tendue engendre l’aigu. Une corde détendue engendre le grave. Tendue, elle revient vite à son point de départ. Détendue, elle revient lentement à son point de départ. Mais il n’y a pas de continuité de grave à aigu. Le son est continu ou discontinu. Continu dans la conversation, la lecture, les discours, parce qu’il ne s’arrête pas à l’aigu ou au grave, parce qu’il glisse de l’un à l’autre sans qu’on puisse fixer de rapport précis. Il est discontinu dans le chant ou chaque degré est suffisamment distingué.

são absolutamente “lindas” e “surpreendentes” vindas de alguém que viveu de 480 a 524 d.C., e, os helenistas que me perdoem, mas ele estende o estudo de Ptolomeu de uma maneira bastante mais aproximada do que entendemos por “música” hoje.

Enfim… é melhor falar de literatura que de roteadores, podes crer.

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Não, não foi um hacker

30 de março de 2002

Fui eu mesmo que troquei a foto ali à esquerda. okie?

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