Vírus para Celulares

Por Láudano Sine Nauta Navis

A respeito de um hoax que voltei a receber, que trata de “vírus” para aparelhos celulares, reproduzo um email que enviei para minha mãe sobre vírus de computadores e celulares em geral. Espero que seja útil para alguém:

“Espero que você não fique chateada com este email, pois não é a intenção, mas vamos lá:

Primeiro, a parte técnica…
Vírus para celular não existem ainda e provavelmente não existirão até que a Microsoft embuta alguma versão de Windows em algum celular e alguém resolva usar. Ponto. Vírus são programas destrutivos que se aproveitam da arquitetura vagabunda dos produtos da Microsoft. Dois pontos. Quase todos os outros sistemas operacionais para computadores são “infensos” a vírus. O Apple Macintosh, por exemplo, era “imune” a vírus até surgir uma versão de Office para System (o “Windows” que roda nos computadores da Apple) e hoje é vulnerável aos vírus de macro do office, que não estão mais na “moda” nem na mídia. Em 97 eles eram bem “populares”. Não existe vírus para Linux, Solaris, QNX ou qualquer outro UNIX. Não existe vírus para BeOS. Não existe vírus para a maioria dos sistemas operacionais de microcomputadores ou computadores médios ou grandes usados em aplicativos de “missão crítica” (por exemplo, uma máquina de análise de diagnósticos clínicos ou a máquina que gera a fatura das contas dos celulares da empresa em que eu trabalho, que não pode parar nem atrasar, não?). Não existe vírus para mainframes - e sim, ainda existem mainframes e ainda se fabrica esse tipo de computador. Isso não é uma questão de biologia, de mágica ou qualquer outra coisa, é, sim, uma questão de tecnologia, de desenho, de arquitetura desses sistemas. A arquitetura dos produtos da Microsoft é quem proporciona a fácil disseminação dos vírus entre máquinas equipadas com produtos microsoft. O mesmo PC Pentium que você usa, se estivesse equipado/rodando outro sistema operacional, simplesmente não teria problemas com vírus. Computadores não são “naturalmente” predispostos a vírus, nem tampouco os sistemas operacionais que os operam. Tudo é uma questão de escolha tecnológica: A Microsoft escolheu por “simplicidade” de uso em troca da segurança e jamais priorizou o aspecto segurança em seus produtos. As outras arquiteturas priorizam a robustez, confiabilidade ou, como se diz no jargão da área: Disponibilidade. Afinal, computadores deveriam ser máquinas tão “perfeitas” no que tange à disponibilidade (menor tempo fora de operação possível) quanto, por exemplo, uma central elétrica de que depende uma cidade ou um bairro.

E o que tem isso tudo a ver com celulares?

Bom, como te disse, vírus para celulares não existem ainda. Celulares não executam código enviados, nem mesmo os celulares WAP (esses novos, que navegam por uma Internet amputada, especial para aparelhos móveis). Celulares, apesar de terem um pouco de memória RAM, de terem teclas, de poderem ser “programados” para algumas funções básicas como um relógio despertador ou estéreo moderno que se liga em determinado horário, celulares não são, em definitivo, computadores. Continuando na linha da comparação com um estéreo, um celular é muito mais semelhante a um walktalk digital, um walkman incrementado ou uma TV cheia de botões programáveis. Sim, você pode baixar músicas (ring-tones) novas em alguns poucos modelos (muito caros, diga-se), enviar mensagens em texto de um celular para outro, mas nada além disso. Isso tudo por que celulares não executam código “importado”. Não há como enviar uma mensagem ou um ring-tone que faça qualquer outra coisa além de poder ser lido no display (telinha) ou tocar quando entra uma chamada. É uma questão, como no caso dos computadores, de arquitetura, de escolha do fabricante de como devem se comportar os aparelhos que levam o seu nome, e portanto, seu “ganha-pão” (no caso, seu ganha-yacht-ou-scotch-para-os-acionistas-controladores).

Emails como esse que você recebeu e me repassou são apenas uma “brincadeira”, um “hoax” (boato), que alguém inventa para que se propague e sei lá, ele receba de volta de algum amigo, talvez com 200 endereços de email “repassados” ou em “forward”. O que me surpreende e intriga é o porquê das pessoas repassarem esse tipo de boato. Na verdade, me entristece um pouco, porque, com certeza, nenhum dos repassadores deste boato procurou realmente checar se o que estava repassando era “verdadeiro” ou, pelo menos, não”

Update em 30/10/2005: Como tudo na área de tecnologia, as afirmações acima já não procedem. Há vírus para celulares, especialmente aqueles que rodam alguma espécie de Windows (Windows CE, normalmente).

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