No Man’s Land
Por Láudano Sine Nauta Navis
Cena de “Terra de Ninguém
Como não podia deixar de acontecer, não deixei de ir ao cinema pra ver “Terra de Ninguém” (No Man’s Land) sobre a guerra da Bósnia. O filme é uma coprodução Belga com mais metade da Europa (bom, na verdade é “Une coproduction: FRANCE, ITALIE, BELGIQUE, ROYAUME UNI, SLOVÉNIE”)… Irônico e belo, mas não indispensável, apesar de um “bom divertimento”. Estou lembrando de outro filme contando histórias de dois soldados, a obra-prima “Avanti Popolo” de Rafi Bukaee, uma coprodução Egípcio/Israelense (!) de 1986 que retrata a história de dois soldados egípcios perdidos no Sinai, ao final da Guerra dos Seis Dias (1967).
Estou procurando este filme desde o ter visto em algum madrugadão da Bandeirantes ou na TV Cultura aqui de Porto Alegre - não lembro mais - e depois num cinema da Casa Mario Quintana, e não encontro nem quem o tenha assistido, quem dirá alguma locadora que o tenha, ou boa alma que o tenha gravado. No bom e velho São Google, poucas referências, e, ainda, nenhum link que leve a algum VHS, divX - o que seja - dele… Deixa estar :^)

Uma das melhores cenas de “Avanti Popolo”, quando ambos encontram o Mar Vermelho
Bom, em comum, os dois filmes têm o fato de terem sido indicados para o Oscar de óli-ú, sendo que nesse ano o No Man’s Land tem até a possibilidade de levar aquela estátua feia que “parece com meu tio Oscar”, segundo uma das lendas de batismo do kikito deles, e também a ironia da situação em que ambos personagens se encontram, perdidos em suas guerras, perdidos em suas vidas, repetindo a história infinda de Cain e Abel ou alguma outra de outra mitologia.
Costumo gostar de bons filmes de guerra e durante algum tempo, quis muito participar de uma, na adolescência. A chance apareceu, aos 19 anos: Sarajevo, uma das mais lindas cidades da Europa (alguém lembra que as Olimpíadas de Inverno geralmente eram disputadas em Sarajevo nos anos 80?), estava cercada pelos chetniks e franco-atiradores sérvios.
Um conhecido me falou da possibilidade de, através da Itália, se chegar a Sarajevo atravessando a fronteira da Croácia e se unir às “brigadas internacionais”, algo que tinha - de certa forma e naqueles dias - um “romantismo” semelhante ao que levou milhares de estrangeiros a lutarem ao lado dos republicanos espanhóis em 1936.
Ele vai, eu fico. A última notícia que tenho dele - é fotógrafo - é de que é pai de duas meninas croatas e está morando com a mulher, em Zagreb, capital da Hrvatska. Filmes como o russo “A Balada do Soldado” (não confundir com o recente homônimo americano), Apocalypse Now, Os Doze Condenados, Underground (outro sobre as guerras nos Balcãs), e mais alguns que estou esquecendo, são geralmente uma aula sobre o comportamento humano bem mais produtiva que quase toda a ensaística pós-lacan (e Lacan junto, aquele frasista mala) e uma boa desculpa para se fazer poesia sem edulcorações e melosidades.
A loucura da guerra, seja qual seja, não é muito diferente da loucura cotidiana de nossas vidas, com a diferença de que temos, em “tempos de paz” a triste ilusão de que a morte só acontece para os outros. Filmes como “O Resgate do Toupeira Ryan” ou “Full Metal Jacket”, pelo contrário, ao glamourizarem a guerra e, essencialmente, apenas afirmarem a lógica do mocinho-bandido, tão cara aos aguiambúrgueres-do-norte, me provocam crises sincopadas de bocejos, e uma triste vontade de ser monge no Tibet, em Três Coroas ou catador de caranguejo em algum manguezal, ao ouvir os comentários entusiasmados de alguns colegas ou pessoas próximas sobre esse tipo de filme.
Essa sensação de solidão que enfrentamos ao nos deparar com o fato de que boa parte da humanidade ao redor não consegue sair do estágio onanísta da pré-adolescência, não importa que idade tenha, às vezes sufoca, às vezes pode ser bem divertida - se junto houver alguém que entenda a piada, claro.
Enfim, como sempre, começo falando de algo - hoje um filme - e entre parênteses (e entre-vírgulas) vou desviando do assunto, meio num fluxo-de-consciência e acabo em outro atolador completamente diferente. Ó meu deus! Eu só queria dizer que: Veja, veja o No Man’s Land, você não vai se arrepender dos pilas investidos nas duas horas de tela grande… Vale! :^)

Cartaz do “A Balada do Soldado” (1959) de Grigori Tchukrai
Links no IMDB:
Terra de Ninguém
Avanti Popolo
A Balada do Soldado
Veja os preços de: DVD, MP3, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater.
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20 de setembro de 2006 às 7:47
[...] Os Amantes do Círculo Polar (Espanha, 1998) O Sol Enganador (Nikita Mikhalkov, Rússia, anos 90) Stanno Tutti Bene Who’s Afraid of Virginia Woolf (o roteiro do filme com a Liz Taylor e a peça também) Léolo (Canadá, anos 90) Festern (o único “dogma95″ que acertou alguma mão, na minha opinião) Eu Sei Que Vou Te Amar (do Jabor) Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain Mazzeppa (eu teria “consertado” algumas coisas) Underground - do Kusturica Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (da Iugoslávia, da época em que ela ainda existia, também do Emir Kusturica) Avanti Popolo A Marvada Carne (brasileiro, pra quem nunca ouviu falar) A Streetcar Named Desire (O famoso “A rua chamada pecado” com o Brando) La Reine Margot Betty Blue (francês, dos 80) L’Atalante Belle Époque (espanhol, título traduzido para “Sedução”) [...]